Rua Direita - 1960
Estávamos lá, eu e minha mãe, como em outras tantas tardes de idas e vindas aos bancos, para pagar as duplicatas, nesse tempo em que as agências bancárias tinham poucas filiais; o grosso do dinheiro girava em torno das matrizes no centro de São Paulo.
Íamos pela Rua Direita, cheia de pessoas a essa hora, umas 4 horas da tarde. Minha mãe levava uma elegante bolsa pendurada no braço esquerdo e no outro braço a menina que era eu, ambas distraídas com o afluxo de pessoas, com o que ia vir depois, as contas a pagar, o lanche, os livros que eu ia escolher para ganhar...
De repente um homem que vinha atrás de nós abordou um meninote que estava com a mão na bolsa aberta da minha mãe! Lembro perfeitamente desse homem prender com os dedos o cós da calça do menino dando-lhe voz de prisão e da nenhuma reação que partiu do menino, com algumas notas ainda na mão, meio amassadas, meio enroladas. Isto aconteceu em segundos, tão rapidamente quanto o pensamento de que não existia ainda tanto perigo nas ruas de São Paulo, de que a bolsa ia alegremente pendurada com seu fecho seguro, de que a rua estava cheia de gente, de que isso parece que nunca ia acontecer.
O homem se identificou como um policial à paisana e quis levar-nos a todos para a delegacia...
Cheios de indignação lá fomos nós, se me lembro bem, num táxi até uma delegacia central que não sei mais onde seria. Indignado estava o homem porque o meliantezinho bem merecia um castigo; indignada estava minha mãe porque tinha sido roubada, ou quase; indignado estava o rapaz, embora não tivesse aberto a boca nem uma vez, porque tinha sido apanhado; só eu não estava indignada, mas perplexa com a inusitada situação.
Ao chegarmos à delegacia fomos deixados pelo homem que era educado e simples, e já tinha cumprido a sua missão. O rapaz então resolveu falar e disse para minha mãe " a senhora não sabe o que é ficar preso no Juizado". Mas a essa altura não havia nada a ser feito.
Lembro bem da triste situação do prédio da delegacia, com as paredes todas enegrecidas, lascadas, cheias de digitais, como os papéis e formulários. Tive tempo de observar aos poucos tudo o que me rodeava porque a tarde foi longa e a noite veio nos surpreender ainda lá sentadas, com o rapazinho ali do lado, subjugado pelo medo. Tive muita pena dele, de repente. Ele era uns dois anos mais velho do que eu, penso, e estava ali acuado, olhando para nós com olhos enviesados, rebeldes e amedrontados. Pensei comigo mesma que ele nunca devia ter tido uma mãe em quem se apoiar, uma mãe com uma bolsa elegante e recheada, a expectativa de uma visita à livraria com seus milhares de livros e a certeza de poder ganhar alguns deles...
Os embriagados entravam e saiam tropeçando nos soldados e policiais, dizendo bobagens, e nós três ali sentados indefinidamente.
Quando fomos embora, eu e minha mãe e deixamos o menino entregue à sua sorte e era para o Juizado de Menores que ele ia.
Em casa, nessa noite e em muitas subseqüentes, comentamos o acontecido e chegamos à conclusão que mais valia se ele tivesse levado o dinheiro e nós não tivéssemos passado por tão grande constrangimento.... mas era tarde, muito tarde.
