celialu

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Location: São Carlos, São Paulo, Brazil

escritora infanto-juvenil, bibliotecária

Wednesday, January 23, 2008

Rua Direita - 1960

Estávamos lá, eu e minha mãe, como em outras tantas tardes de idas e vindas aos bancos, para pagar as duplicatas, nesse tempo em que as agências bancárias tinham poucas filiais; o grosso do dinheiro girava em torno das matrizes no centro de São Paulo.
Íamos pela Rua Direita, cheia de pessoas a essa hora, umas 4 horas da tarde. Minha mãe levava uma elegante bolsa pendurada no braço esquerdo e no outro braço a menina que era eu, ambas distraídas com o afluxo de pessoas, com o que ia vir depois, as contas a pagar, o lanche, os livros que eu ia escolher para ganhar...
De repente um homem que vinha atrás de nós abordou um meninote que estava com a mão na bolsa aberta da minha mãe! Lembro perfeitamente desse homem prender com os dedos o cós da calça do menino dando-lhe voz de prisão e da nenhuma reação que partiu do menino, com algumas notas ainda na mão, meio amassadas, meio enroladas. Isto aconteceu em segundos, tão rapidamente quanto o pensamento de que não existia ainda tanto perigo nas ruas de São Paulo, de que a bolsa ia alegremente pendurada com seu fecho seguro, de que a rua estava cheia de gente, de que isso parece que nunca ia acontecer.
O homem se identificou como um policial à paisana e quis levar-nos a todos para a delegacia...
Cheios de indignação lá fomos nós, se me lembro bem, num táxi até uma delegacia central que não sei mais onde seria. Indignado estava o homem porque o meliantezinho bem merecia um castigo; indignada estava minha mãe porque tinha sido roubada, ou quase; indignado estava o rapaz, embora não tivesse aberto a boca nem uma vez, porque tinha sido apanhado; só eu não estava indignada, mas perplexa com a inusitada situação.
Ao chegarmos à delegacia fomos deixados pelo homem que era educado e simples, e já tinha cumprido a sua missão. O rapaz então resolveu falar e disse para minha mãe " a senhora não sabe o que é ficar preso no Juizado". Mas a essa altura não havia nada a ser feito.
Lembro bem da triste situação do prédio da delegacia, com as paredes todas enegrecidas, lascadas, cheias de digitais, como os papéis e formulários. Tive tempo de observar aos poucos tudo o que me rodeava porque a tarde foi longa e a noite veio nos surpreender ainda lá sentadas, com o rapazinho ali do lado, subjugado pelo medo. Tive muita pena dele, de repente. Ele era uns dois anos mais velho do que eu, penso, e estava ali acuado, olhando para nós com olhos enviesados, rebeldes e amedrontados. Pensei comigo mesma que ele nunca devia ter tido uma mãe em quem se apoiar, uma mãe com uma bolsa elegante e recheada, a expectativa de uma visita à livraria com seus milhares de livros e a certeza de poder ganhar alguns deles...
Os embriagados entravam e saiam tropeçando nos soldados e policiais, dizendo bobagens, e nós três ali sentados indefinidamente.
Quando fomos embora, eu e minha mãe e deixamos o menino entregue à sua sorte e era para o Juizado de Menores que ele ia.
Em casa, nessa noite e em muitas subseqüentes, comentamos o acontecido e chegamos à conclusão que mais valia se ele tivesse levado o dinheiro e nós não tivéssemos passado por tão grande constrangimento.... mas era tarde, muito tarde.

Monday, January 21, 2008

A menina que roubava livros - fantástico! Que maneira deliciosa de escrever. Que narrativas interessantes, descrições mais que perfeitas...A vontade é sempre aquela: porque não escrevi isso aí? Parece que saiu de dentro de mim! Esta deve ser a maior alegria do escritor, que os seus leitores se integrem com ele, que sintam imensa inveja!
Parece que estamos ali na Alemanha nazista participando de tantos acontecimentos que sabemos terem acontecido mas para os quais não temos uma descrição cotidiana. A famosa sopa de ervilhas da mamãe da protagonista: como ignorar uma coisa tão prosaica e que parece tão importante no decorrer da narração. Que gosto medonho teria essa sopa de ervilha? E por que ervilhas e não couve ou batata? Os sapatos da menina, velhos e fedorentos, amarrados com cadarço... como os de meninos?? O acordeão do papai... o fole indo e vindo, o som meio marcha, meio polca.... que cor teria o instrumento?
Nem quero ler muito para não acabar. Vou prolongar essa sensação de estar ali em Molching, Munique, Alemanha acompanhando a morte em sua insensível narrativa...

Thursday, January 17, 2008

Lembranças


Lembro de tardes que se foram há muito, eu menina, meninota, com minha mãe, no centro de São Paulo. Íamos para pagar as duplicatas nos bancos; nos bairros ainda não havia agências filiais.

Tinha medo de me perder, já naquele tempo havia muita gente pelas ruas e praças. De braços dados, com todo cuidado, caminhávamos as duas sem pestanejar. Aqui, ali, entrando nas filas dos bancos imponentes, de mobiliário pesado, em madeira nobre, lindos vasos de plantas a enfeitar.

Eu aguardava paciente todos os momentos que malmente compreendia esperando que acabassem para poder chegar aonde queria: a hora do lanche e do lazer.

O lanche consistia em enormes pastéis de carne e queijo, meio que novidade naquela época, acompanhados de garapa! Lanchinho light, hein? Mas, naqueles dias essa palavra light não existia...

Depois sim: hora de visitar a Companhia Melhoramentos! Bem na Praça da Sé.

Ah! Que deslumbre! As paredes estavam forradas de livros de todos os tipos, tamanhos, assuntos, ilustrações... Eu queria ficar lá para sempre, nem precisava voltar. Podia escolher o que quisesse, na medida do possível e dos cordões da bolsa!

Ficava analisando os livros mais acessíveis das prateleiras, provavelmente os ideais para a minha idade, passando a mão, folheando, sentindo o prazer de poder possuir um daqueles, qualquer um, era só escolher...

Até hoje quando começo a ler um livro sinto um pouquinho dessa ansiedade, dessa alegria daqueles momentos memoráveis. O tato, o cheiro, um olhar distraído nas ilustrações, a capa, as orelhas, a vontade de começar a ler e ao mesmo tempo a vontade de prolongar essas sensação.

Tuesday, January 15, 2008

O NOME

DIFÍCIL COMO UM PARTO

SE QUERO, SE GOSTO

DESGOSTO

ESCOLHER UM NOME PROPÍCIO

NÃO É UMA ESCOLHA FÁCIL

É PARA TODA A VIDA!

VAMOS COM ELE EMBORA

PARECE COISA TÃO SIMPLES

TEM LIVRO COM SUGESTÕES

MAIS DE MIL NOMES, IMAGINE!

COM QUE LETRA COMEÇARÁ?

DEVE TERMINAR EM ELA?

ISSO É COISA PRA PENSAR.

RAFAELA, MIRELA, MANUELA

NAÕ! NÃO MAIS FALAR!

LÍVIA, LUANA, LETÍCIA

TEM QUE COMEÇAR COM L?

CAMILA, MARIA FERNANDA

ESSE NOME

COMO UM PARTO, VIRÁ

Monday, January 14, 2008

Sobre telas e febres
Um homem mais ou menos culto, amante das artes, teve a idéia de roubar duas telas famosas e caríssimas. Para apreciar, para revender, para arrecadar, para saborear...Não se sabe como conseguiu o enorme feito de entrar num museu famoso que parecia ter todos os quesitos de segurança que se espera de um lugar com bilionários pertences. Mas, não tinha... E ele entrou e levou o que queria e quando alguma coisa não deu certo fugiu. E foi para Goiás e esteve lá alguns dias. As telas voltaram ao seu lugar. Coisa espantosa. Mais espantoso ainda foi o fato do ladrão não ter contraído, ainda, a febre amarela...

Thursday, January 10, 2008

Ah! VONTADE DE FICAR

MAS TENDO DE IR EMBORA.

Ah! QUE AMAR É IR-SE PERDENDO

PELA ESTRADA AFORA...



QUANTAS COISAS FICARAM PARA TRÁS.

CARINHOS, VONTADES, TRISTEZAS

E INÚMERAS ALEGRIAS...

QUE NINGUÉM É DE FERRO

NEM DE LATA

MAS, FEITO DE MOMENTOS FÚLGIDOS

E FUGIDIOS



COISAS QUE NÃO VOLTAM MAIS

E ÀS VEZES ISSO É BOM!

COISAS QUE NÃO VOLTAM MAIS

E ÀS VEZES ISSO DÓI!





TENHO MUITAS SAUDADES DO QUE FOI

E DO QUE NEM ACONTECEU AINDA

SEI QUE ESTÁ ALI, LOGO ALI

E NÃO ALCANÇO

E NÃO CHEGO

E NÃO CONSIGO

AI!

Tuesday, January 08, 2008

Dia de cirurgia II
Quando saí da casa de minha filha para ir ao hospital despedi do meu genro médico e disse:"até a volta; a primeira pessoa que vou ver depois da cirurgia será você", porque ele tem acesso à UTI e às salas de cirurgia.
Pois foi o que aconteceu. Ao acordar, ainda com os tubos de respiração, vi o Dr. Marcelo na beirada da minha cama e tive certeza que não havia morrido, ufa!...
Com os olhos comuniquei a ele a minha alegria e ele captou a mensagem!
Nada e ninguém conseguiria me aborrecer nesse momento! O fato de estar viva sobrepujou qualquer incômodo por estar entubada e qualquer sensação de absoluta incapacidade de me mexer, de respirar livremente, de estar ligada a inúmeros frascos de coleta e absorção.
Dali a pouquinho, mergulhada num sono tonto, ouvi a enfermeira dizendo: "Celia, vamos tirar o tubo" e nem senti nada....
Foram dois dias de UTI onde não se dorme (só se escapa num sono grogue e desigual) se come sim, uma comida horrível, sopinha ralíssima sem sal e gelatina e se fica à mercê de banhos no leito ( com direito a lavar a cabeça com shampoo e tudo!), de picadas para tirar sangue e controlar a glicemia e exames de raio X, cujas máquinas vêm ao quarto e que fazem com que o custo para se posicionar na cama seja grande.
Ai, dor! Ai, sensação de aperto no peito... e sabemos que está tudo costurado e amarrado com fio metálico, argh!
Só o fato de estar viva e respirando fazem com que as coisas não sejam piores ainda do que realmente são.