Ao crepúsculo assim, ela parecia mais infantil ainda. De costas para o mar, que teimava em ir e vir com uma cor entre verde-alga e azul-cobalto, de cócoras na areia molhada, ela jogava sozinha um jogo da velha inusitado. Ela mesma riscava as perpendiculares e preenchia com os sinais, as casas desiguais em número de nove. Ela... quase sempre ganhava. O mar apagava tudo. Como uma professora rápida e com pressa. E ela voltava a riscar.
Imediatamente assumimos nossa posições. Ela era o círculo, redondo e contínuo, cheio de mistérios e infinito, a roda do tempo, dos ancestrais e do progresso. Eu era o xis da questão. Enigmático, muito enigmático. Pronto para complicar, para extrair, para deduzir em equações mais ou menos complicadas.
No jogo que começamos naquele dia, do qual o mar foi testemunha, colocamos parte de nossas vidas, toda nossa juventude e muitos dias de expectativas.
Passeamos pela praias, trocamos idéias tolas, molhamos os pés na salmoura, cutucamos com os dedões os furos da areia molhada à cata de alguma concha ou crustáceo. Isto era apenas a ciranda da sedução. Com meu x queria levá-la comigo até um apartemanto ali pertinho, tomar um vinho ou cerveja, conversar um pouco, tomá-la em meus braços e zás... era tudo que eu queria.
Um pequeno apartamento, muito bem mobililado, quente e confortável. Do lado direito do prédio, terceiro andar. Lá ela colocou o primeiro círculo, o círculo da vida que começava. Com muita harmonia, com muito tato ela me levou ao casamento. Papéis assinados, igreja florida, som de órgão, tudo que ela queria e que eu sempre desprezei. Primeria casa, à direita, em cima.
Joanne nasceu dois anos depois. Jo-eine, como ela teimava em dizer. Na verdade foi o centro de nossas vidas, o ponto fundamental. O círculo prevaleceu, mas meu xis duplo, espermatozóide esperto, contribuiu sobremaneira para a concretização desse sonho. Joanne, Jo-eine, minha filhota! As regras do jogo foram quebradas, ela jogou duas vezes. Casa do meio, círculo com gosto de xis.
Aconteceu que eu consegui um diploma. Um título acadêmico. A mágoa dela era não ter conseguido se formar. Curso superior para quê, prefiro cuidar da Joanne, dizia ela sensivelmente despeitada. Joguei esse diploma na cara dela durante bom tempo. A alegria da colação, os preparativos do baile, os convites almofadados, as fotos com a turma (a maior parte das formandas era mulher), o canudo vazio mas significativo. Era o xis da questão. Estudar não é muito importante, mas ter um título... Primeira casa, à esquerda, em baixo.
Fui à carga novamente. Sentado no avião, sobre a asa do lado esquerdo, com um belo terno e pasta na mão. Minha primeira viagem ao exterior como executivo. Inglês fluente, diploma, emprego perfeito, ótima remuneração. E ela ficou cuidado da Jo-eine... Deu x na casa do meio, à esquerda.
Um simples telegrama. Um chamado para comparecer ao Consulado. Sabe aquele sobrenome inglês do nome dela? Pois é. Um tetravô absolutamente remoto e esquecido, nem sabíamos que ele existia; morava em uma cidade perdida no Reino Unido, de nome impronunciável. Faleceu, coitado, e deixou uma bela fortuna. Nem grande, nem pequena. No ponto exato para começar uma nova vida. Uma casa suntuosa, com jardins para Joanne brincar, um atelier para ela pincelar suas telas impressionistas demais. Ela foi à loucura. Esnobou amigos, mandou vir um decorador, riu do meu salário mediano. Pegou meu xis no contrapé. Um círculo (com novas amizades) na casa de cima, à esquerda.
Ao crepúsculo, assim, a outra parecia muito infantil. De costas para a rua, na lanchonete do andar térreo do prédio, na semi-obscuridade da tarde, a outra estava distraída com um imenso sorvete de taça, três cores, onde ela mexia com um biscoito e chupava delicadamente. Sentei-me na mesa ao lado e por alguns minutos observei. A boca pequena e vermelha fazia um biquinho voluptuoso e o biscoito ficava com a ponta vermelha de batom. Mas, não foi ali no térreo que tudo aconteceu. Foi no último andar do prédio que a ciranda da sedução se concretizou. Uma bela amante, com tudo que eu (não) tinha direito. Casa do meio, em cima, para colocar meu xis.
Muitas outras subiram ao topo, e eu subi com elas. Habituei-me aos prazeres rápidos e sem compromisso, gozei do bom e do melhor que uma vida pode oferecer.
O atelier dela vivia cheio de personalidades, de gente que entendia de arte. Marchands, pintores, expositores iam e vinham através dos jardins, comentando as pinturas, analisando as cores, deduzindo significados. Para mim era tudo absurdo; umas figuras esfumaçadas, formas quase imperceptíveis, cores pastel enchendo telas e telas que se reproduziam como bichinhos no cio. Uma delas, a que eu achava mais ridícula, por acaso, foi premiadíssima em vários lugares do mundo. E ela se tornou importante, prestigiada, a imprensa queria falar com ela, os poderosos nos visitavam. Joanne já pincelava algumas telas infanto-juvenis. Ela me deu uma chance de ouro, protelou sua vitória, ficou dona da situação e colocou um círculo firme e forte, no meio, à direita.
Uma queda acentuada de cabelo, um ligeiro mal-estar à noite, coisas assim que nem preocupavam muito, apenas fazem com que a gente procure um médico. Afinal meu cabelo de bonitão já estava com alguns fios a menos e a aparência é fundamental. Vamos fazer uma série de exames, já está na hora, sugere o médio muito consciente. E o resultado foi mesmo positivo. Portador, sim senhor. As noites de alegria e despojamento que eu tinha vivido, o descuidado nada pode me acontecer. Meu xis nunca ficou tão abaixo como desta vez. Em baixo, à direita, fechando a dupla tentativa dela de vencer.
Resta somente uma casa para ser preenchida. Como nunca, essa casa está vazia, como minha própria casa, como minha própria vida, oca de sentimentos, um vácuo em forma de vida-casa. Ela parece ser a vencedora, com sua saúde, seus amigos, Jo-eine que cresce muito vaidosa. E a vida-casa sempre vazia. Um círculo ou um xis vão fechar esse jogo. É possível que ela, com seu ciclo de vida feche o meu caixão, brindando os coquetéis que falharam. E jogará sozinha para sempre o jogo da velha.