Dispuz-me a viajar, com tudo que isso implica, malas, trens e acessórios, deixando para trás os problemas e preocupações. Seria isso possível? Ou iria carregar todo o repertório de coisinhas escondida em uma pochete qualquer, numa frasqueira laminada, numa necessaire estampada...Sozinha iria e sozinha voltaria, esse é o meu lema. Já me bastam as coisas que tenho que resolver, não posso assumir outras demandas, outras exigências que um outro ser iria com certeza me pedir. Homem ou mulher, a proximidade, a intimidade, a convivência geram esse atribulados cadinhos e eu estava longe de querer me envolver.
Não diria que a viagem foi agradável, o tempo em nada ajudou. As constantes rajadas de vento e os flocos de neve que caiam ainda tímidos não permitiam que a carruagem deslizasse como costumava acontecer e o cocheiro ia de mau humor, sem uma palavra sequer.
Chegados à estalagem aquilo que parecia ser desagradável tornou-se uma simples brincadeira. A nevasca só esperava o término da viagem para despencar em grandes flocos cobrindo tudo de branco e gelo, gelo e frio.
Da janela da sala, aquecida por grandes toras de carvalho numa lareira quase monumental, viam-se as montanhas ao redor que se cobriam inteiramente, grandes espectros imóveis, estriados de caminhos estreitos e curvelíneos.
Nada de esportes de inverno, nada de trenós, nada de esquis, somente o branco perdido na visão, na paisagem aguada e inclemente.
Ainda assim meu espírito se regozijou: buscar a paz, buscar o silêncio , jazer em branco num lugar distante.